Os Correios encerraram o primeiro trimestre de 2026 com resultado negativo de R$ 3,16 bilhões — quase o dobro do rombo de R$ 1,7 bilhão registrado no mesmo período do ano anterior. O número consolida a pior abertura de ano da história da estatal, que já vinha de um 2025 marcado pelo maior prejuízo anual de sua trajetória: R$ 8,5 bilhões.
A empresa está no vermelho desde 2022. Segundo os dados divulgados pela companhia, a combinação de queda de receita, explosão de despesas financeiras e crescimento das obrigações judiciais aprofundou o desequilíbrio entre janeiro e março deste ano.
Receita cai, custos sobem onde mais dói
A receita bruta de vendas e serviços somou R$ 4,04 bilhões no trimestre, queda de 2,2% frente aos R$ 4,13 bilhões do mesmo intervalo de 2025. O segmento de encomendas puxou a baixa: recuou 5,5%, para R$ 2,2 bilhões. As postagens internacionais sofreram o maior tombo — 60,3% de redução, chegando a apenas R$ 156 milhões.
Nem tudo foi negativo no lado das receitas. As mensagens avançaram 11,4%, para R$ 1,2 bilhão, e outras receitas cresceram 48%, atingindo R$ 465 milhões.
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Os custos de produtos e serviços cederam 7,6%, passando de R$ 3,7 bilhões no período. As despesas com pessoal também recuaram 4,1%, para R$ 2,7 bilhões, reflexo do Programa de Demissão Voluntária (PDV) — mecanismo de saída incentivada — adotado em 2024 e de cortes operacionais. Ainda assim, os salários tiveram reajuste de 5,1% acordado com a categoria no ano passado.
Despesas financeiras triplicam e processos judiciais explodem
O alívio nos custos operacionais foi mais que anulado pelo avanço das despesas financeiras, que saltaram de R$ 283 milhões para R$ 985 milhões entre os dois trimestres comparados. Esse tipo de gasto inclui juros sobre dívidas e encargos financeiros — e pesa diretamente no resultado final da empresa.
Em 2025, os Correios obtiveram um empréstimo de R$ 12 bilhões com aval da União — ou seja, com garantia do governo federal. O serviço dessa dívida contribui para o aumento das despesas financeiras.
As indenizações pagas a clientes por atrasos nas entregas também chamam atenção. Em março de 2026, o valor chegou a R$ 30,5 milhões — 15 vezes o registrado em março de 2025, quando o montante era de R$ 2 milhões. A greve de funcionários no fim de 2025, durante o período de Natal, gerou acúmulo de reclamações que se refletiu nesses números.
O passivo judicial (soma dos processos em aberto) atingiu R$ 4,66 bilhões em março de 2026, ante R$ 3,6 bilhões ao fim de 2025. Desse total, R$ 1,06 bilhão corresponde a uma dívida potencial decorrente de ações trabalhistas que a gestão atual reconheceu formalmente.
Herança contábil e fiscalização
A atual direção dos Correios aponta que a gestão anterior — do período do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro — não incluiu uma provisão de R$ 1 bilhão nas demonstrações financeiras de 2023. Provisão, em contabilidade, é o registro antecipado de uma perda provável: ao não fazê-lo, o balanço anterior subestimava o tamanho do problema.
O Tribunal de Contas da União (TCU) e a Controladoria-Geral da União (CGU) já contestaram a avaliação dos Correios sobre essas provisões judiciais.
Emmanoel Rondon assumiu a presidência da estatal no fim de setembro de 2025 e herdou esse cenário de contas deterioradas.
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