O Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal) contratou a atriz Luana Piovani por R$ 300 mil para gravar um vídeo contrário à PEC de autonomia financeira do Banco Central do Brasil (BC). A contratação foi aprovada em reunião virtual do conselho regional Sinal-DF em 9 de junho, com 5 votos favoráveis e 1 abstenção.
No mesmo dia da aprovação, Piovani publicou o vídeo no Instagram com a hashtag #publi (marcação usada para indicar conteúdo patrocinado). A ata da reunião foi obtida pelo jornal “Folha de S.Paulo”. Ao veículo, o sindicato negou o pagamento.
O que diz a ata
A ata registra que Edna Velho, presidente do Sinal-DF e diretora de relações externas da executiva nacional do sindicato, destacou a importância de uma “atuação mais incisiva” da entidade nas redes sociais. Segundo o documento, “nesse contexto, foi sugerida a contratação da atriz e influenciadora Luana Piovani para participar de campanha de comunicação voltada à crítica da PEC, considerando sua atuação pública em manifestações relacionadas a temas de interesse social e a propostas consideradas prejudiciais à população”.
A ata também registra que “a presidente informou sobre a conversa com a profissional e seu alinhamento à posição defendida pelo sindicato, além do valor cobrado pela gravação de um vídeo e postagem no perfil oficial da atriz, esclarecendo que o pagamento somente seria realizado após deliberação deste conselho e apenas em caso de aprovação da proposta”. Por fim, o documento acrescenta: “A proposta da contratação foi colocada em votação com valor de até R$ 300.000,00 (trezentos mil reais) pela campanha em questão”.
No vídeo, Piovani afirmou: “No Brasil resolveram criar a roda, estão querendo inovar, gente. Querem colocar o Banco Central independente do governo e sujeito a sofrer influências externas. Gente, isso não tem cheiro de perigo? Me parece um risco gigantesco”. Antes disso, ela explicou ao público: “Por isso fiz umas anotações, inclusive tive que dar uma estudada e pedir ajuda aos universitários para poder estar aqui conversando com vocês”.
Em story posterior, declarou: “É superimportante que todas as publicidades sejam óbvias que estão sendo publicidade. Isso é superimportante, para o consumidor saber. É isso, para vocês não ficarem assim, tão invejosinhos”. E acrescentou: “Talvez vocês não saibam, aí eu vou contar. Eu só vendo o que eu consumo, e eu só falo [de algo com] o que eu concordo. Eu não acho inteligente privatizarem o nosso Banco Central. Não gostou, deita na BR”.
Campanha custou mais de R$ 800 mil
A contratação de Piovani não foi o único gasto do Sinal na campanha contra a PEC. Em 19 de fevereiro, o sindicato autorizou a contratação de um escritório de advocacia para elaborar uma nota técnica sobre a proposta, por R$ 250 mil, segundo ata de reunião do Sinal. Em 29 de maio, o sindicato aprovou a destinação de mais R$ 250 mil para ampliar a campanha, após avaliação de que “a campanha já veiculada em diferentes mídias teve excelente receptividade, alcançando resultados positivos em termos de visibilidade e engajamento”, conforme outra ata.
A PEC, Proposta de Emenda à Constituição, muda o regime jurídico do BC para o de entidade pública de natureza especial. Em resumo, o que está em jogo é o grau de independência formal do BC em relação ao governo federal. A proposta foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal em 10 de junho, um dia após a publicação do vídeo de Piovani.
Na prática, os servidores do BC continuariam sob regime estatutário, com remuneração sujeita ao teto do funcionalismo público federal, fixado em R$ 46.366,19.
Servidores já haviam rejeitado a PEC
Em assembleia geral realizada em 2024, cerca de 4.500 servidores do BC participaram da votação. Desse total, 74% rejeitaram a PEC, segundo o Sinal.
Epitácio Ribeiro, presidente do Sinal, afirmou apoiar a autonomia do BC, mas não na forma prevista na PEC. Thiago Cavalcanti, presidente da Associação Nacional dos Auditores do Banco Central (ANBCB), é favorável à proposta.




