O Irã enfrenta desafios para romper o bloqueio naval dos EUA no Estreito de Ormuz, impactando sua estratégia de guerrilha e pressionando sua economia. O governo iraniano enviou uma proposta de negociação a Washington por intermédio de mediadores paquistaneses, conforme informou a agência estatal Irna nesta sexta-feira (02/05). A operação americana reduziu a capacidade iraniana de executar ações militares no conflito.
A ofensiva naval americana foi implementada semanas após o início da guerra contra portos iranianos. Dezenas de embarcações iranianas foram forçadas a retornar aos portos sem conseguir atravessar o cerco. Navios de guerra americanos passaram a cercar e interceptar petroleiros. Nenhuma carga de petróleo iraniana chegou a compradores no exterior até o momento.
O bloqueio ocorre no Estreito de Ormuz, rota estratégica por ser passagem de aproximadamente um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados globalmente. Antes do bloqueio americano, o Irã havia tentado obter vantagem ao atacar embarcações no Estreito de Ormuz. A ofensiva iraniana interrompeu o tráfego marítimo e elevou os temores nos mercados globais. A resposta dos Estados Unidos alterou o equilíbrio do conflito.
O presidente americano Donald Trump afirmou que pretende manter o bloqueio até que o Irã aceite suas condições nas negociações sobre o programa nuclear. Trump rejeitou a oferta iraniana sobre o Estreito de Ormuz. O presidente americano afirmou que manterá o bloqueio, considerando-o mais eficaz que bombardeios.
Pressão Econômica e Divisões Internas no Irã
A operação interrompeu as exportações de petróleo do Irã e ampliou a pressão econômica sobre o país, segundo informações do Wall Street Journal. O bloqueio passou a restringir a estratégia de guerrilha iraniana ao diminuir sua capacidade de pressionar o mercado energético e contornar sanções. O bloqueio naval dificultou o funcionamento da frota “fantasma” iraniana, utilizada para driblar sanções e enviar petróleo à China.
Entidades do setor no país estimam que apenas cerca de 40% das transações poderiam escapar dos portos bloqueados. Os efeitos sobre a economia iraniana já são significativos. A moeda local perdeu mais da metade do valor no último ano. O país enfrenta aumento do desemprego. Há alta nos preços dos alimentos. Restrições prolongadas de internet afetam negócios digitais.
O governo iraniano tenta redirecionar parte do comércio por rotas terrestres e ferroviárias. As alternativas logísticas têm alcance limitado. O Irã ofereceu a reabertura do Estreito de Ormuz em tratativa com os EUA, mas excluiu o programa nuclear da discussão.
O impasse aprofundou divisões internas no Irã. Aliados do presidente Masoud Pezeshkian defendem conter as hostilidades e buscar um acordo com os EUA. Setores mais conservadores pressionam por uma retomada das ações militares para elevar o preço do petróleo e forçar concessões de Washington.
Os linha-dura avaliam que o cerco naval equivale a um ato de guerra e defendem uma resposta mais agressiva. Autoridades iranianas chegaram a mencionar o uso de novas armas e ameaçaram atingir cabos submarinos no Estreito de Ormuz, o que poderia afetar comunicações globais.
O chefe do Judiciário iraniano declarou que o país está disposto a negociar com os EUA, mas sem aceitar imposições, mantendo seus princípios. O líder supremo do país, Mojtaba Khamenei, elevou o tom contra os EUA em declarações recentes. Em desafio a Trump, o líder supremo afirmou que o Irã não abrirá mão de tecnologia nuclear e de mísseis.
Sem avanço nas tratativas, cresce o risco de uma nova escalada militar. O bloqueio, inicialmente visto como alternativa ao confronto direto, passa a ser tratado por ambos os lados como parte da própria guerra. Mesmo sob pressão, os dois lados apostam que o adversário acabará cedendo. O governo americano acredita que o agravamento da crise econômica levará o Irã a recuar. Teerã aposta que Washington poderá flexibilizar o bloqueio para reduzir impactos nos mercados globais e nos preços da energia.
David Des Roches, antigo diretor responsável pela política relativa ao Golfo Pérsico no Departamento de Defesa, avalia que o Irã conseguiu gerar instabilidade no mercado, mas isso não significa controle. Com o bloqueio, o país enfrenta um momento decisivo.
Saeid Golkar, especialista em Irã na Universidade do Tennessee em Chattanooga, afirma que o regime precisa romper esse impasse. Para os moderados, prolongar a guerra pode ter um custo político alto.
“Não é mais um substituto da guerra, mas uma forma diferente dela”, diz Hamidreza Azizi, especialista em Oriente Médio no SWP, um instituto de pesquisa em Berlim.




