A primeira visita de estado de um presidente norte-americano em exercício à China desde 2017 marca muito mais do que a quebra de um hiato diplomático de quase uma década. Ao observar os bastidores do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, fica claro que estamos diante da redefinição das regras da geopolítica global.
O que está na mesa não é apenas um diálogo protocolar, mas um tenso jogo de xadrez onde a disputa por Taiwan dita barganhas que envolvem desde o Oriente Médio até o agronegócio brasileiro.
A mensagem oficial da diplomacia chinesa gira em torno de uma “coexistência pacífica”. Traduzindo o jargão, o recado de Pequim para Washington é direto e assertivo: “vocês terão que nos engolir”.
A China senta-se à mesa ciente de seu imenso poder econômico e comercial, exigindo falar de igual para igual e lembrando aos americanos que já são uma potência estabelecida. Longe dos sorrisos e dos discursos floreados, as conversas de bastidores – os famosos tête-à-têtes – foram marcadas por forte tensão, especialmente quando o destino de Taiwan foi colocado em pauta.
Diante das garantias americanas de proteção à ilha, os chineses estabeleceram uma linha vermelha inegociável, alertando que a boa relação depende de Washington não ultrapassar esse limite.
Contudo, na alta diplomacia, todo limite imposto exige uma concessão do outro lado. Se os Estados Unidos aceitarem não cruzar a linha vermelha de Taiwan, qual será a moeda de troca cobrada por Trump? O mundo inteiro está inserido nessa barganha.
Estaria a China disposta a recuar em seu apoio econômico ao Irã, aliviando o grande conflito atual? Ou a moeda de troca envolveria o nosso quintal, com Pequim diminuindo suas relações com Cuba e com a América Latina? Como o próprio Xi Jinping ressaltou no banquete oficial, esta é a relação bilateral mais importante do mundo.
É por isso que é um erro crasso encarar esse encontro como um evento geopolítico distante. Trata-se de uma negociação com impacto direto e imediato sobre nós. Se, por exemplo, a China decidir comprar mais soja norte-americana para barganhar outros acordos com Trump, a conta dessa pacificação será paga diretamente pelo agronegócio brasileiro.
Em um cenário onde as maiores potências renegociam a harmonia do mundo, ignorar os movimentos de Pequim é um luxo que simplesmente não podemos nos dar. O Brasil precisa, mais do que nunca, de um pragmatismo absoluto para sobreviver a essa nova ordem.