O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cometeu um erro histórico nesta terça-feira (02/06) ao mencionar Joaquim Silvério dos Reis durante um discurso em Catalão (GO). Ao criticar integrantes da família Bolsonaro, Lula afirmou que o homem conhecido por delatar a Inconfidência Mineira teria sido enforcado por traição.
A declaração, no entanto, não corresponde aos registros históricos. Quem foi executado pela Coroa Portuguesa em 1792 foi Tiradentes (Joaquim José da Silva Xavier), considerado o mártir da Inconfidência Mineira. Já Joaquim Silvério dos Reis recebeu recompensas por sua colaboração com as autoridades portuguesas e morreu de causas naturais em 1819, aos 63 anos.
A fala ocorreu quando o presidente classificava adversários políticos da família Bolsonaro como “traidores”. “Por menos do que isso, Joaquim Silvério dos Reis, que delatou Tiradentes, foi enforcado”, declarou.
O homem que se tornou sinônimo de traição
Poucos personagens da história brasileira carregam uma reputação tão negativa quanto Joaquim Silvério dos Reis. Nascido em 1756, durante o período colonial, ele era coronel de cavalaria, fazendeiro e contratador de impostos — função exercida por particulares autorizados pela Coroa Portuguesa a arrecadar tributos em determinadas regiões.
Na prática, os contratadores funcionavam como intermediários entre a população e o governo português. Em troca do direito de arrecadar impostos, assumiam compromissos financeiros com a Coroa. O sistema permitia grandes lucros, mas também gerava endividamentos elevados quando a arrecadação ficava abaixo do esperado.
Foi justamente essa situação que marcou a trajetória de Silvério dos Reis. Ao longo dos anos, ele acumulou uma dívida milionária com a administração portuguesa. O passivo ameaçava sua fortuna, suas propriedades e sua posição social.
A crise em Minas Gerais
No final do século XVIII, Minas Gerais vivia um período de declínio econômico. A produção de ouro, principal riqueza da capitania, já não alcançava os níveis das décadas anteriores. Apesar disso, Portugal mantinha a cobrança de pesados impostos sobre a atividade mineradora.
Entre os mecanismos mais odiados estava a chamada “derrama”, uma cobrança compulsória que poderia ser decretada quando a arrecadação de tributos não atingia as metas estabelecidas pela Coroa.
A insatisfação levou membros da elite mineira — militares, religiosos, magistrados, intelectuais e proprietários rurais — a planejar um movimento de separação de Portugal. Inspirados pelos ideais iluministas e pela independência dos Estados Unidos, os conspiradores defendiam a criação de uma república em Minas Gerais.
Entre os participantes estavam figuras como Tiradentes, o poeta Cláudio Manuel da Costa, o jurista Tomás Antônio Gonzaga e o cônego Luís Vieira da Silva.
A delação que mudou a história
Embora participasse do grupo de conspiradores, Joaquim Silvério dos Reis decidiu mudar de lado em 1789. Pressionado pelas dívidas e interessado em obter benefícios pessoais, procurou o governador da capitania, o Visconde de Barbacena, e entregou um relato detalhado do movimento.
Segundo registros históricos, ele forneceu informações consideradas decisivas para o governo português: revelou os nomes dos envolvidos, explicou os objetivos da conspiração, indicou os locais das reuniões e informou a estratégia dos inconfidentes de iniciar a revolta quando fosse decretada a derrama.
A riqueza de detalhes permitiu que as autoridades agissem antes mesmo de o plano sair do papel.
Com isso, a derrama foi suspensa e os participantes passaram a ser monitorados, presos e interrogados. A revolta foi desmontada antes que qualquer confronto armado acontecesse.
Para muitos historiadores, a delação de Silvério dos Reis foi o fator decisivo para o fracasso da Inconfidência Mineira.
O julgamento e a morte de Tiradentes
Após a descoberta da conspiração, a Coroa Portuguesa instaurou um longo processo de investigação conhecido como Devassa. Os acusados permaneceram presos por anos enquanto o governo reunia provas e depoimentos.
Ao final do julgamento, vários integrantes da elite receberam penas mais brandas, posteriormente convertidas em degredo para colônias portuguesas na África.
Tiradentes teve destino diferente. Sem o mesmo prestígio político dos demais conspiradores e assumindo grande parte da responsabilidade pelo movimento, ele foi condenado à morte.
Em 21 de abril de 1792, Tiradentes foi enforcado no Rio de Janeiro. Seu corpo foi esquartejado e partes dos restos mortais foram expostas publicamente como forma de intimidação.
Com o passar do tempo, sua imagem seria resgatada e transformada em símbolo da luta pela independência e da República brasileira.
As recompensas recebidas pelo delator
Enquanto Tiradentes caminhava para a execução, Joaquim Silvério dos Reis recebia aquilo que buscava ao denunciar os companheiros.
A Coroa Portuguesa perdoou suas dívidas, concedeu benefícios financeiros e garantiu privilégios que lhe permitiram preservar seu patrimônio.
Do ponto de vista econômico, a estratégia foi bem-sucedida. Do ponto de vista social, porém, o preço foi alto.
Sua participação na queda da Inconfidência tornou-se amplamente conhecida, transformando-o em uma das figuras mais odiadas do período colonial.
Uma vida marcada pelo medo
A fama de traidor acompanhou Joaquim Silvério dos Reis pelo resto da vida. Relatos históricos indicam que ele passou a conviver com ameaças constantes, hostilidade pública e tentativas de agressão.
Temendo represálias, deixou o Brasil e passou um período em Portugal. Mesmo longe, não conseguiu se desvincular da imagem que havia construído.
Quando retornou ao país, em 1808, aproveitando a transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro, percebeu que continuava sendo alvo de forte rejeição, especialmente em Minas Gerais e no Rio de Janeiro.
Por essa razão, decidiu viver longe dos grandes centros políticos da época.
Os últimos anos no Maranhão
Silvério dos Reis escolheu São Luís, no Maranhão, para passar seus últimos anos. A decisão também tinha relação com os vínculos familiares de sua esposa, Bernardina Quitéria de Oliveira Belo, que possuía raízes na região.
Mesmo distante dos locais onde sua traição era mais lembrada, continuou carregando o peso da própria reputação. Historiadores relatam que viveu de forma relativamente isolada e discreta, evitando exposição pública.
Em fevereiro de 1819, morreu aos 63 anos. Os registros históricos não apontam uma causa específica para o falecimento, sendo geralmente aceito que tenha ocorrido por causas naturais.
O mistério sobre o túmulo
Após sua morte, Joaquim Silvério dos Reis foi enterrado na Igreja de São João Batista, no centro histórico de São Luís. O registro de óbito encontra-se preservado no Arquivo Público do Estado do Maranhão. Entretanto, o destino de seus restos mortais tornou-se um mistério ao longo dos anos.
Documentos e relatos indicam que havia uma lápide identificando seu túmulo, mas reformas realizadas na igreja durante o século XX teriam eliminado essa referência.
A partir daí surgiram versões segundo as quais seus restos teriam sido removidos do local original e transferidos para uma vala comum não identificada, devido ao desconforto provocado pela presença do homem considerado o maior traidor da história brasileira.
Não há consenso definitivo sobre o que ocorreu, mas o desaparecimento da sepultura contribuiu para ampliar a aura de rejeição que cercou sua memória.
O “Judas” da história brasileira
Mais de 230 anos após a Inconfidência Mineira, Joaquim Silvério dos Reis continua sendo lembrado como um personagem decisivo para o fracasso da principal tentativa de ruptura política do Brasil colonial.
Sua delação alterou o curso dos acontecimentos em Minas Gerais, levou à prisão dos conspiradores e abriu caminho para a condenação de Tiradentes.
Por isso, seu nome atravessou os séculos como um símbolo da traição, frequentemente comparado ao personagem bíblico Judas Iscariotes. Enquanto Tiradentes foi transformado em herói nacional, Silvério dos Reis permaneceu associado à figura do homem que trocou um projeto político e seus companheiros por benefícios pessoais e pelo perdão de suas dívidas.
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