Eu não tenho mais dúvida: a adesão à ideologia política, hoje, se comporta como uma forma de limitação cognitiva. O debate público brasileiro deixou de ser um espaço de confronto de ideias e virou um ambiente de repetição. Palavras são usadas como reflexo, não como pensamento. A realidade, quando incomoda, é descartada.
Quando olho para o bolsonarismo, o que vejo não é força política, mas necessidade de crença. A figura do “mito” nunca se sustentou em nada concreto. Era linguagem vazia, repetida até ganhar aparência de verdade. Mesmo depois de um governo desorganizado, de uma condução desastrosa em momentos críticos e de flertes com ruptura institucional, a devoção permaneceu. Isso não é análise. É adesão.
Mas eu não consigo tratar isso como exclusividade de um campo. No governo atual, o padrão muda de forma, mas não de essência. Há uma dificuldade evidente de reconhecer desgaste, uma insistência em velhas fórmulas e uma surpresa quase ingênua diante da insatisfação popular. Como se o problema estivesse sempre fora nunca dentro.
O resultado, para mim, é um país em que a política virou identidade. Cada grupo constrói sua própria versão do mundo e passa a defendê-la como se bastasse. A verdade não desaparece. Ela só deixa de ter utilidade.
E é aí que o problema se torna mais sério. Não é sobre direita ou esquerda. É sobre a incapacidade de pensar sem a proteção da ideologia. Quando isso acontece, o debate deixa de existir. Fica só a torcida e a ilusão de que isso ainda é política.
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