“Linha de produção” de fraudes e “cronograma” de propinas: entenda a fraude bilionária do BRB

Investigação da PF revela que alertas internos foram ignorados e mensagens de WhatsApp mostram a relação próxima entre Paulo Henrique Costa e o banqueiro Daniel Vorcaro

Por Felipe Cerqueira | Atualizado em
Foto: Agência Brasília
Foto: Agência Brasília

A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a prisão do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, trouxe à tona os detalhes de um esquema financeiro complexo e bilionário.

As investigações da Polícia Federal (PF) apontam para uma atuação estruturada que une a compra de ativos sem lastro financeiro ao pagamento de propinas milionárias disfarçadas de operações imobiliárias.

Entenda, passo a passo, como funcionava a engrenagem do esquema:

1. A Fraude Bilionária: R$ 12,2 bilhões em créditos falsos

O núcleo do esquema envolve as operações entre o BRB e o Banco Master. Segundo a PF, foi criada uma “engrenagem ilícita” para fabricar, vender e repassar carteiras de crédito fictícias do Master para o banco de Brasília.

  • A “Fábrica” de Documentos: A investigação identificou uma verdadeira “linha de produção” de documentos artificiais — planilhas, contratos e extratos criados em massa para dar aparência de legalidade a ativos que, na verdade, não tinham lastro.
  • O Rombo: Por meio dessa estrutura, o BRB chegou a adquirir cerca de R$ 12,2 bilhões em ativos irregulares.
  • Alertas Ignorados: O que agrava a situação é que a diretoria do BRB não foi apenas omissa. Pareceres jurídicos e relatórios técnicos já apontavam as inconsistências das operações. Ainda assim, as compras seguiram em frente com pressa incomum e desprezo às regras prudenciais.

2. A Propina de R$ 146,5 Milhões

A contrapartida pela liberação dessas operações bilionárias teria vindo em forma de imóveis de luxo. A investigação estima que Paulo Henrique Costa tenha aceitado R$ 146,5 milhões em vantagens indevidas, das quais mais de R$ 74 milhões já foram rastreadas pela Polícia Federal.

O pagamento não era aleatório, mas seguia um “cronograma pessoal” do ex-presidente do BRB:

  • Foram identificados seis imóveis de altíssimo padrão em São Paulo e no Distrito Federal.
  • Segundo a PF, o próprio ex-presidente visitava, validava e cobrava o andamento da compra dessas propriedades, chegando a se preocupar com a documentação do arranjo.

3. Lavagem de Dinheiro e Ocultação

Para esconder que o ex-presidente do BRB era o verdadeiro dono desses imóveis, a organização criminosa montou uma estrutura sofisticada de ocultação patrimonial.

Os seis imóveis foram associados a empresas distintas (de fachada) e fundos de investimento. Essas companhias eram abertas com capital irrisório, transformadas em sociedades anônimas e, logo depois, recebiam aportes financeiros exatamente no valor dos bens adquiridos, em uma estratégia para “dissociar formalmente o agente público da propriedade”.

Em um dos casos mais explícitos, Paulo Henrique teria pedido para deixar em branco o campo de adquirente de um imóvel, sob a desculpa de que montaria uma holding familiar.

4. A Relação com Daniel Vorcaro: “Preciso dele feliz”

A decisão do STF coloca a relação entre Paulo Henrique Costa e o empresário e banqueiro Daniel Vorcaro no centro do esquema. Mensagens interceptadas revelam que os dois tratavam simultaneamente das operações no banco público e da compra dos imóveis de luxo.

Em um diálogo de WhatsApp revelador, Costa avisa Vorcaro que estava preparando uma defesa para o governo do Distrito Federal sobre as operações do banco, pois já esperava receber críticas.

Logo em seguida, ao tratar da compra de imóveis, Vorcaro cobra uma corretora para acelerar o processo:

“Preciso dele feliz. Reverte isso aí.”

5. Por que a prisão preventiva foi decretada?

Para o ministro André Mendonça, as provas colhidas vão muito além de uma falha de governança corporativa ou negligência administrativa.

O STF aponta uma “adesão consciente ao arranjo criminoso”. A prisão preventiva de Paulo Henrique Costa foi decretada sob o argumento de que a organização criminosa é altamente estruturada e, se os envolvidos permanecessem soltos, haveria um sério risco de que o grupo continuasse se articulando para “ocultar os danos bilionários à sociedade”, travando as investigações e dando continuidade à lavagem de dinheiro.

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