A Alfa Inteligência realizou levantamento nacional entre 6 e 11 de março de 2026 com mil entrevistados. O estudo revela que 53% dos brasileiros consideram “ideias e propostas” como fator determinante na decisão do voto para a Presidência da República. O alinhamento ideológico tradicional apresenta influência reduzida no eleitorado.
A pesquisa possui nível de confiança de 95% e margem de erro estimada em 3,1 pontos percentuais. Aproximadamente 65% dos eleitores declaram não estar automaticamente alinhados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou a Flávio Bolsonaro (PL).
O critério “ser de direita” motiva 10% dos entrevistados. O fator “ser de esquerda” determina o voto de apenas 5% do eleitorado brasileiro. Emanoelton Borges, fundador do Instituto Alfa Inteligência e especialista em estratégia política, pesquisas eleitorais e comportamento do eleitor, explica que a direita brasileira apresenta o dobro do engajamento em relação à esquerda. “Quando as propostas elas não vêm, então o eleitor faz uma segunda leva de raciocínio para poder encontrar outros atributos de escolha”, afirma.
Rejeição aos rótulos ideológicos explica fenômeno
Um terço do eleitorado brasileiro já não aceita as classificações convencionais de “esquerda” e “direita”. O dado foi detalhado em recortes anteriores do mesmo levantamento da Alfa Inteligência.
O pragmatismo dos eleitores reflete o que será cobrado pela população nas eleições deste ano. Entre os eleitores de Lula, 71% reconhecem que o voto está alinhado ao volume de entregas realizadas pelo governo durante o terceiro mandato do presidente.
No eleitorado de Flávio Bolsonaro, 33% priorizam as propostas dos candidatos. O percentual de 25% decide o voto especificamente por ele “ser de direita”. A base bolsonarista apresenta o maior percentual de eleitores que consideram a “situação econômica” na definição do voto: 14%.
Borges destaca que quando as propostas não são apresentadas, o eleitor busca outros critérios de escolha. “Quando não tem proposta ele vai para uma segunda camada de escolha que passa a ser rejeição do candidato”, explica o especialista. Ele acrescenta que “o eleitor da direita é muito mais ativo no digital, ele é muito mais engajado, então ele termina tendo mais orgulho de representar aquela faixa ideológica”.
Indicadores econômicos e perspectivas para 2026
A Secretaria de Política Econômica (SPE) divulgou em fevereiro de 2026 o balanço de 2025 e as perspectivas para o ano corrente. A estimativa da SPE aponta expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em 2,3% em 2026.
O ano de 2025 registrou aumento de 2,3% no PIB, segundo o IBGE. A projeção do IPCA é de 3,6%. A taxa de desemprego no último trimestre de 2025 foi de 5,1%.
A insatisfação econômica tem marcado a percepção do brasileiro ao longo dos quatro anos da gestão Lula. O endividamento familiar, a inadimplência e a falta de perspectiva de mudanças para os jovens estão entre os fatores que têm feito a insatisfação com o governo crescer.
Durante reunião ministerial em março de 2026, Rui Costa, da Casa Civil, demonstrou insatisfação com a Secretaria de Comunicação Social da Presidência. O ministro questionou se “o povo sabe” das entregas realizadas pelo governo ao apresentar um balanço da gestão. A Secretaria de Comunicação Social é comandada pelo publicitário Sidônio Palmeira.
As campanhas do PT e do PL estão ajustando seus discursos para tentar conquistar o eleitorado pragmático. A equipe de Lula estabeleceu como foco central apresentar o senador como agente político que atuaria segundo interesses dos Estados Unidos.
Flávio Bolsonaro pretende concentrar as críticas na gestão econômica, na segurança pública e no combate à corrupção. Segundo Borges, a ausência de propostas concretas tem levado candidatos a explorarem pautas alternativas. “Nós enxergamos hoje o Supremo como um ativo eleitoral. Nós vamos ver vários senadores eleitos que a pauta vai ser epítema de ministro do Supremo. Veja que ponto nós chegamos. O Congresso ao invés de debater a segurança pública que está alardeada pelo país inteiro inclusive em cidades pequenas antigamente era só em cidades maiores hoje são todas as cidades pequenas tem digamos essa franquia do crime né que é uma coisa horrível e aí as propostas o eleitor quer isso quando não tem proposta ele vai para uma segunda camada de escolha”, analisa.
O especialista observa que candidatos como Romeu Zema e Renan Santos podem se beneficiar desse cenário. “Não deixa de ser proposta, então o candidato que ele tiver a expertise e a iniciativa de atuar no 360 da cabeça do eleitor em relação a propostas, em relação a faixa ideológica, mas também em relação às pautas que hoje está movendo o brasileiro, ele vai ter êxito”, afirma Borges.
A pesquisa também revela que apenas 2% dos entrevistados não souberam responder sobre os critérios de escolha do voto, indicando que o eleitorado possui posicionamento definido sobre os fatores que influenciam sua decisão.
Borges destaca um padrão que se repete desde 2022. “Nesse ano, um terço do eleitor do Bolsonaro votou em Bolsonaro para que Lula não vencesse e 34% do eleitor do Lula votou para que Bolsonaro não vencesse. Esse ano vai ser a mesma coisa”, prevê. Segundo o especialista, “cerca de 91% das rejeições a nível de eleição presidencial está distribuída entre Lula e Flávio Bolsonaro. Então sobra 9% para os outros candidatos”.
O fundador da Alfa Inteligência alerta para o risco de uma campanha de baixo nível. “O primeiro rejeito, já que não tem uma proposta, aí eu vou para a escolha do menos pior. E aí veja como o brasileiro, o Brasil, ele está num abismo de uma convulsão social. Porque as propostas passam a não ter tanta relevância. Ele quer a proposta, o eleitor, mas a proposta não vem. Então eu vou pra uma segunda leva de escolha, eu vou pra rejeição”, explica.
Borges projeta que “terão poucas propostas e ataques assim, de forma sangrenta, a própria eleição de 22, os debates… Era uma comédia, né?”
A análise do cenário eleitoral indica que a fragmentação de candidatos de direita no primeiro turno tende a se consolidar em torno de um único nome no segundo turno. Borges explica que “qualquer pesquisa de qualquer instituto vai estar Lula na frente no primeiro turno, mas quando passa para o segundo turno ou está dando empate técnico ou Flávio numericamente à frente. Porque os candidatos que estão dividindo essa faixa, eles são da mesma faixa ideológica. Então eles se aglutinam no final das contas”.
O especialista observa que o campo de centro-esquerda não apresenta candidaturas competitivas. ” Também não tem ninguém ali numa moderação mais de centro com viés de esquerda. Então se tivessem mais candidatos isso poderia ajudar o Lula no segundo turno. Então está todo mundo contra um. Porque a esquerda está toda unida ao nome de Lula”, analisa.
Borges identifica um desafio específico para a candidatura petista. “Existe efetivamente uma fadiga de material porque dos últimos 24 anos de eleição, o PT vem governando 18. Então falar sobre futuro é uma barreira cada vez mais complexa porque o eleitor ele aprova pelo que se fez, mas ele vota pelo que virá. Então esse é um desafio relativamente forte para o Lula”, conclui.
O eleitorado pragmático, aquele que foge de rótulos, possui uma forte matriz conservadora. A característica se manifesta até mesmo na base da esquerda, conforme pesquisas anteriores da Alfa Inteligência.
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