Essa é a primeira vez que acompanho, de perto, como se torna um ano eleitoral. Não existe uma virada de chave. A política já vive em modo campanha, mas chega um momento em que a eleição ganha corpo – com nomes, bandeiras e anúncios de medidas. Esse último privilégio, claro, é de quem está no poder.
No Brasil, desde que a democracia é democracia, mandatários e suas equipes aceleram os pacotes de bondades na medida em que a eleição se aproxima. Não importa o retrato fiscal. Se o país comporta ou não aquele gasto. Não interessa como está o caixa. Conceitos como responsabilidade fiscal, equilíbrio orçamentário e sustentabilidade das contas públicas se evaporam.
Hoje, o Brasil já dá sinais claros desse movimento. Do lado do governo, um parágrafo é insuficiente para abrigar tantas medidas. Avança o Desenrola 2.0, cresce a pressão pelo fim da escala 6×1, discute-se ampliar crédito, limitar juros e segurar custos básicos. Na energia e nos combustíveis, entram na mesa contenção de tarifas e até subsídio ao diesel. Tudo pensado para chegar rápido ao eleitor.
No Congresso, pautas que ampliam gastos também avançam com mais facilidade. É o caso da PEC que fixa um valor mínimo da receita da União para financiar a assistência social — o que antes dependia da disponibilidade de caixa passa a ser obrigatório. Nos últimos meses, partidos de diferentes espectros se mobilizaram para tirar o texto da gaveta e levá-lo à votação.
Apadrinhar é o verbo do momento. Mas isso não começou agora. Em 2022, sob o governo Jair Bolsonaro, o roteiro foi parecido. Entre cortes de impostos e a criação de novos benefícios, houve de tudo: aumento do Auxílio Brasil, subsídios, e até um auxílio específico para taxistas. Na época a justificativa era social.
Quem está no poder sempre pode agir mais e, portanto, levar mais crédito. Mas o problema é o que vem depois. Se “quem pariu Mateus que o balance”, alguém vai ter que lidar com o filho, ou a conta – e ela não some. Ela só muda de lugar.