A nossa coluna aqui trata de assuntos ligados à tecnologia e, hoje, quero trazer muito mais perguntas do que respostas.
Claro que o tema tem relação com tecnologia, redes sociais e algoritmos. O assunto envolve um detergente, e eu não vou entrar no mérito da questão em si. O que me interessa é outro ponto: por que tivemos recentemente uma polarização envolvendo sandálias e agora vemos o mesmo acontecer com detergente? E, possivelmente, presenciaremos tantos outros episódios semelhantes, especialmente em um ano marcado por Copa do Mundo, eleições e diversos temas que naturalmente afloram emoções.
De forma rápida e superficial, poderíamos atribuir uma espécie de culpa à tecnologia, especialmente às redes sociais. Mas é importante entender como funciona esse modelo de negócio.
As plataformas operam com base na chamada economia da atenção. Para potencializá-la, acionam justamente aquilo que mais mobiliza seres humanos, as emoções.
As emoções humanas são identificadas, estimuladas e alimentadas. O objetivo é simples, o de fazer com que as pessoas permaneçam conectadas pelo maior tempo possível. Quanto mais tempo online, maior o espaço para publicidade e monetização.
Nesse processo, as redes também incentivam a formação de grupos, reforçam pertencimentos e ampliam conflitos. Quando somamos todos esses elementos, a conclusão parece inevitável. Poucas coisas funcionam melhor para engajamento do que pessoas tentando defender ou atacar algo.
No fim, muitos sequer percebem que, independentemente da pauta, o algoritmo e o modelo de negócios funcionaram perfeitamente. As pessoas permanecem mais tempo conectadas, compartilham mais, comentam mais e ajudam a impulsionar ainda mais aquele conteúdo.
A pauta, no final das contas, pouco importa. Mas a minha pergunta é: se esse fenômeno é real, ele acontece da mesma forma em todas as partes do mundo?
É aqui que entra um dado interessante. Uma pesquisa da Morning Consult (feita no fim de fevereiro de 2026) analisou quais são os países mais polarizados do mundo. O Brasil lidera esse ranking.
O estudo compara diversos países e coloca o Brasil em primeiro lugar em polarização. Diante disso, surge uma questão ainda mais relevante: isso é causa ou consequência?
Será que chegamos a um ponto em que a pauta pouco importa e até sandálias e detergentes são capazes de mobilizar multidões? Ou já existia um terreno fértil para isso?
Será que existem países e populações mais suscetíveis a esse tipo de dinâmica, enquanto outros conseguem atravessar esses estímulos de maneira menos emocional e mais racional?
Talvez a tecnologia não tenha criado a polarização, mas apenas encontrado nela um ambiente extremamente lucrativo.
No fim, talvez a grande pergunta não seja sobre detergentes, sandálias ou qualquer outro tema aparentemente banal. A verdadeira questão é por que estamos tão disponíveis para transformar qualquer assunto em disputa?
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