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Correspondente na Europa, Marina Izidro cobre os principais desdobramentos políticos e econômicos do Reino Unido e da União Europeia. Uma análise refinada sobre como os eventos globais reverberam no Brasil.

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Otan enfrenta crise de capacidade sob pressão de guerras e divisões internas

Relato de ex-chefe militar expõe falta de armamentos na Europa, enquanto tensões políticas e dependência externa ampliam incertezas na aliança

Por Marina Izidro | Atualizado em
Donald Trump atravessa porta com o logo da Otan ao lado
(Foto: Yves Herman/Arquivo/Reuters)

As tensões dentro da Otan deixaram de ser apenas ruído diplomático e passaram a representar um alerta concreto sobre o estado atual da segurança global. A aliança atravessa um momento de fragilidade estrutural, exposto não só pelos conflitos em curso, como a guerra na Ucrânia, mas também por falhas internas acumuladas ao longo de décadas.

Quando um ex-chefe militar da Otan admite a falta de armas, equipamentos e capacidade produtiva para sustentar um eventual conflito, o diagnóstico deixa de ser técnico e passa a ser estratégico. A declaração de Rob Bauer sobre “prateleiras vazias” sintetiza o custo de anos de negligência com a indústria de defesa europeia.

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O problema vai além da escassez imediata. Existe uma dependência estrutural de países considerados adversários, como no caso das terras raras concentradas na China. Forma-se, assim, um paradoxo delicado: a Europa precisa se preparar para conflitos enquanto depende, em parte, de quem pode estar do outro lado deles. Trata-se de uma vulnerabilidade que expõe os limites da autonomia militar do bloco.

No campo político, o cenário se torna ainda mais complexo. A pressão por aumento de gastos militares, impulsionada por Donald Trump, revela uma contradição central: ao mesmo tempo em que cobra mais investimentos, o discurso crítico à própria aliança contribui para desgastar sua credibilidade. Uma estrutura baseada em cooperação dificilmente se sustenta sob desconfiança pública entre seus principais membros.

Nesse contexto, o Reino Unido também aparece sob pressão. As críticas à sua capacidade militar mostram que nem mesmo potências tradicionais estão imunes ao desgaste. É nesse ponto que ganha relevância o uso do chamado “soft power” pela monarquia britânica.

A visita de Charles III aos Estados Unidos se insere como uma tentativa de recompor relações por meio de gestos simbólicos e discursos cuidadosamente calibrados. Diferente da postura historicamente mais neutra de Elizabeth II, o atual monarca demonstra maior disposição para sinalizações políticas, ainda que de forma sutil. Ao defender a Ucrânia, reforçar a importância da Otan e sugerir cautela nas declarações públicas de lideranças, os discursos carregam mensagens que vão além da formalidade diplomática.

Esse conjunto de movimentos aponta para uma transformação na forma como a diplomacia se manifesta em tempos de instabilidade. Mais do que acordos formais, ganham espaço narrativas, símbolos e influência indireta. Ainda assim, episódios envolvendo Donald Trump evidenciam o quanto a imprevisibilidade política pode comprometer estratégias cuidadosamente construídas.

Leia mais: Rei Charles III discursa no Congresso dos EUA em meio à pior crise diplomática com Reino Unido em um século

O cenário que se desenha é de descompasso: alianças tensionadas, capacidade militar questionada e lideranças que nem sempre atuam de forma alinhada. Embora geograficamente distantes, esses acontecimentos produzem efeitos concretos no Brasil, seja na economia, na geopolítica ou no posicionamento internacional.

Ignorar esse movimento global significa subestimar seus impactos. O enfraquecimento de grandes alianças e o redesenho das relações internacionais afetam cadeias produtivas, mercados e decisões políticas. Em um mundo interdependente, crises externas deixam de ser apenas externas e passam a integrar, de forma direta, o cotidiano de outros países.

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