Tenho a impressão de que a democracia anda sendo tratada como um contrato com cláusula de conveniência.
Vale quando o resultado agrada. Quando desagrada, surgem suspeitas, manifestações e discursos que colocam em dúvida a legitimidade das urnas.
Agora é a Colômbia. O candidato derrotado, apoiado por Gustavo Petro, convocou a população à desobediência civil e questionou o resultado da eleição. Petro fez o mesmo.
A dúvida é se ambos receberão o mesmo rótulo atribuído a outros líderes que agiram de forma semelhante.
A desobediência civil, conceito associado a Henry David Thoreau, nasceu como uma forma pacífica de resistência ao Estado. Inspirou movimentos importantes da história e não tem relação com violência.
Ainda assim, pode ser usada como instrumento para desgastar a confiança nas instituições quando o objetivo deixa de ser protestar e passa a ser contestar um resultado legítimo.
A direita latino-americana frequentemente escolheu caminhos mais grosseiros, recorrendo à força em vez do argumento. Mas um discurso mais sofisticado não muda a essência da questão. Colocar em dúvida uma eleição apenas porque ela foi perdida continua sendo um péssimo sinal.
No fim, a moda política parece a mesma para todos os lados: quando se vence, celebra-se a democracia. Quando se perde, começa a procura por um motivo para não aceitar o placar.
Talvez o maior compromisso democrático seja justamente reconhecer que o adversário também tem o direito de ganhar.
Veja a coluna completa no YouTube da TMC: