As audiências públicas promovidas pelo USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) sobre a proposta de aplicação de tarifas adicionais a produtos brasileiros terminaram nesta terça-feira, após dois dias de consultas que reuniram entidades, empresas e representantes políticos dos dois países.
Ao longo das sessões, prevaleceram manifestações contrárias ao chamado tarifaço, reforçando a preocupação do setor produtivo com os impactos da medida sobre o comércio bilateral.
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou do segundo dia das audiências, nesta última terça-feira. O senador abriu sua manifestação afirmando que a adoção das tarifas a menos de três meses das eleições presidenciais ocorreria no “pior momento possível”. Ao longo da apresentação, concentrou seus argumentos em três eixos: a defesa do Pix, denúncias de corrupção envolvendo o PT e críticas a decisões do Supremo Tribunal Federal, classificadas por ele como episódios de censura.
Na avaliação de integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a participação do senador acabou produzindo efeitos políticos contrários aos pretendidos. A interpretação é que Flávio Bolsonaro priorizou uma agenda política e eleitoral, deixando em segundo plano os impactos econômicos da sobretaxa para exportadores e empresários brasileiros.
Entre os pontos que mais chamaram a atenção no Palácio do Planalto estiveram as críticas ao Mercosul, as referências negativas à China e a defesa de um maior alinhamento comercial com os Estados Unidos.
Para interlocutores do governo, a estratégia reforçou argumentos da administração Donald Trump para justificar a elevação das tarifas e ainda sinalizou que um eventual adiamento da medida para depois das eleições poderia abrir espaço para negociações caso a oposição vença o pleito.
A defesa do Pix também foi alvo de críticas nos bastidores. Embora tenha afirmado que o sistema de pagamentos não deveria ser prejudicado pelas medidas americanas, Flávio Bolsonaro sustentou que a ferramenta deveria permanecer restrita ao ambiente de países ocidentais.
Na avaliação de integrantes do Executivo, a posição acabou alinhando o discurso brasileiro à disputa geopolítica travada pelos Estados Unidos com a China, o que poderia comprometer relações comerciais com outros importantes parceiros do Brasil, como Japão, Índia, Indonésia e Coreia do Sul.
Nos bastidores do governo, a avaliação é que Flávio Bolsonaro não apenas deixou de condenar de forma contundente o tarifaço, como reforçou argumentos utilizados pela administração americana para justificar a medida. Interlocutores do Planalto entendem que o discurso do senador deslocou o foco da defesa dos interesses econômicos brasileiros para pautas ideológicas e eleitorais, enfraquecendo a narrativa de oposição às tarifas.
O documento encaminhado anteriormente por Flávio Bolsonaro às autoridades americanas já havia provocado reações semelhantes dentro do governo. A avaliação predominante é que o texto privilegiava argumentos de natureza política e eleitoral, em detrimento da defesa dos interesses econômicos do país diante da possível sobretaxa sobre produtos brasileiros.
A repercussão da estratégia também expôs divergências entre aliados do senador. Um dos principais sinais desse desgaste foi a desistência do jornalista Paulo Figueiredo de participar da audiência pública promovida pelo USTR.
Inicialmente, ele defenderia que as tarifas impostas pelos Estados Unidos acabariam beneficiando politicamente o governo Lula, ao mesmo tempo em que prejudicariam o grupo político ligado a Flávio Bolsonaro. A participação, porém, foi cancelada após a repercussão negativa de declarações recentes em que afirmou que mulheres “não sabem votar” e fez comentários classificados como machistas e misóginos.
Nos bastidores, a avaliação é de que a ida de Flávio Bolsonaro à audiência foi articulada pelo próprio Paulo Figueiredo, como uma tentativa de associar a imagem do senador à defesa dos interesses brasileiros diante da política tarifária americana.
Nesse contexto, participação de Flávio Bolsonaro ganhou ainda mais relevância porque o governo brasileiro optou por não ocupar espaço nas audiências públicas do USTR. A decisão do Executivo foi baseada no entendimento de que esse tipo de consulta é destinado, principalmente, a agentes econômicos e partes interessadas que não dispõem de canais institucionais de negociação entre os dois governos.
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