A aprovação, pela Anatel, das mudanças regulatórias que abrem caminho para a internet via satélite diretamente no celular representa um dos avanços mais importantes da conectividade no Brasil dos últimos anos. Na prática, estamos falando de uma tecnologia capaz de ampliar significativamente a cobertura móvel, levando sinal para locais onde hoje ele simplesmente não existe.
O funcionamento é relativamente simples de entender. Os satélites de baixa órbita passam a atuar como verdadeiras torres de telefonia no espaço, oferecendo cobertura praticamente contínua. É justamente esse modelo utilizado pela Starlink, empresa de Elon Musk, que começa a ganhar espaço também no mercado brasileiro.
Essa tecnologia já vem sendo testada desde 2024 e a expectativa é que sua operação comercial no Brasil tenha início entre o final de 2027 e o começo de 2028.
Um ponto importante é que o consumidor não precisará contratar um plano diretamente com a Starlink. A empresa fornecerá a infraestrutura para as operadoras de telefonia, que serão responsáveis por disponibilizar esse serviço aos seus clientes. A tendência, seguindo o que aconteceu em outros países, é que o recurso seja inicialmente gratuito ou tenha apenas uma pequena cobrança adicional. Com o passar do tempo, planos que ofereçam maior volume de dados e velocidades superiores poderão exigir pagamentos extras.
Também é importante compreender que essa cobertura não começará oferecendo exatamente a mesma experiência que temos hoje nas redes móveis tradicionais. Em mercados como Estados Unidos e Chile, por exemplo, o serviço começou permitindo principalmente o envio de mensagens de texto. Ainda assim, trata-se de uma mudança enorme.
Em um país com as dimensões do Brasil, conseguir enviar uma simples mensagem pode representar uma diferença decisiva. Imagine alguém viajando por uma rodovia, sofrendo um problema mecânico, furando um pneu ou enfrentando qualquer situação de emergência em um local completamente isolado. Em muitos desses casos, hoje sequer existe cobertura para pedir ajuda.
Os impactos vão além da segurança. Existe também um enorme ganho de produtividade. Em países menores, as pessoas permanecem conectadas praticamente durante todo o tempo, independentemente de estarem em deslocamento. Seja em um trem, em um carro ou em qualquer outro meio de transporte, elas conseguem trabalhar, se comunicar ou consumir conteúdo sem interrupções.
No Brasil, essa realidade ainda está distante. O 5G avançou bastante nas grandes cidades e em diversos bairros das regiões metropolitanas, mas basta nos afastarmos dos grandes centros para que a qualidade do sinal comece a cair rapidamente. Nas estradas, essa limitação é ainda mais evidente. Em muitas regiões rurais e localidades afastadas, a Starlink acabou se tornando, nos últimos anos, praticamente a única alternativa viável de conectividade.
É justamente por isso que considero essa novidade uma excelente notícia. Ela amplia o acesso à comunicação e reduz uma das maiores limitações geográficas do país.
Leia mais: O que a Ford nos ensina sobre os limites da inteligência artificial
Ao mesmo tempo, é importante não criar expectativas equivocadas. Essa tecnologia não substituirá a telefonia móvel convencional nem a banda larga fixa. Quando o 5G foi lançado, muitas pessoas imaginaram que poderiam cancelar a internet residencial e utilizar apenas a conexão do celular. Algumas realmente fizeram isso, mas boa parte percebeu que as duas soluções são complementares.
A banda larga continua oferecendo maior estabilidade e velocidades superiores, características essenciais para atividades como trabalho remoto, videoconferências e uso intensivo de dados. O 5G trouxe um avanço extraordinário, e a conectividade via satélite representa mais um passo nessa evolução, oferecendo cobertura praticamente contínua, ainda que, inicialmente, com velocidades mais modestas.
Essa discussão também desperta uma reflexão interessante. Durante muito tempo, ficar sem sinal fazia parte da rotina, principalmente em áreas rurais ou durante viagens. Agora começamos a caminhar para um cenário em que praticamente sempre haverá alguma forma de conexão disponível.
Isso nos leva a uma questão que vai além da tecnologia. Na filosofia existe uma brincadeira bastante conhecida: as pessoas chegam cheias de perguntas e depois descobrem que alguém já tentou responder praticamente todas elas há dois, três ou até quatro mil anos. A tecnologia continua avançando de forma impressionante e resolve problemas que antes pareciam impossíveis, mas o ser humano permanece essencialmente o mesmo.
Gosto muito de uma frase que resume bem esse momento: a tecnologia se torna cada vez mais capaz de realizar coisas que parecem absolutamente mágicas, enquanto convive com instituições que ainda são medievais, criadas por cérebros paleolíticos.
Em outras palavras, nossa capacidade tecnológica evolui muito mais rapidamente do que nossa própria evolução como sociedade.
Talvez esse seja um dos grandes desafios das próximas décadas. Assim como hoje precisamos explicar às novas gerações que existiu um mundo sem internet, em breve será preciso contar que houve uma época em que as pessoas simplesmente ficavam desconectadas porque estavam sem sinal de celular. Para quem crescer nesse novo ambiente de conectividade permanente, essa realidade provavelmente parecerá tão distante quanto muitas tecnologias do passado parecem para nós hoje.