Caracas entra no terceiro dia de buscas por desaparecidos com hospitais sobrecarregados e críticas crescentes à ausência do governo nas operações de resgate. A crise foi desencadeada por dois terremotos que sacudiram a Venezuela na quarta-feira, com intervalo de apenas 39 segundos entre os abalos.
O primeiro sismo teve magnitude 7,2 e teve origem em San Felipe, a oeste da capital. Trinta e nove segundos depois, um segundo abalo, de magnitude 7,5, atingiu a região. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o segundo tremor ocorreu a profundidade relativamente rasa e a cerca de 5 km de uma falha geológica. A intensidade foi suficiente para ser percebida até o norte do Brasil.
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A sequência dos dois abalos agravou os danos. O primeiro enfraqueceu estruturas e comprometeu fundações de edifícios. O segundo provocou desabamentos imediatos em Caracas, gerando um fluxo intenso de feridos para as unidades de saúde da cidade.
Hospitais sob pressão
O Hospital Dr. Miguel Pérez Carreño, o Hospital Periférico de Catia, o Hospital José María Vargas e o Hospital Domingo Luciani receberam centenas de feridos transferidos das áreas mais afetadas. Os setores de trauma e cirurgia foram os mais pressionados.
O médico residente Rodolfo Salcedo, do Pérez Carreño, descreveu o atendimento como feito “com o muito ou o pouco” disponível. A falta de insumos é uma realidade em várias unidades.
No Hospital Infantil Dr. J.M. de los Ríos, trabalhadores relataram danos estruturais que forçaram a unidade a operar de forma parcial. Pacientes internados foram transferidos para outras unidades. A médica chefe da emergência matutina, Lujuanis Ortega, apontou carência de oxímetros, termômetros digitais infantis, analgésicos, anti-inflamatórios, anti-hipertensivos, gazes, luvas, máscaras e seringas. Segundo ela, “isso, sim, está acabando bastante e rápido”. No Hospital José María Vargas, um trabalhador que falou sob anonimato destacou a necessidade de “fraldas, leite em pó e roupinhas de bebê, porque temos muitas crianças em situação crítica”.
Voluntários onde o governo não aparece
Na ausência de resposta oficial, a população organizou redes de doação. A voluntária Natasha Velásquez, que levou doações ao Pérez Carreño, descreveu o movimento: “A comunidade venezuelana, melhor impossível. Gente de todo lado trouxe doações: comida, roupa, líquidos, água… e até muita comida pronta para o pessoal que está trabalhando”. Ela explicou a motivação: “Nos juntamos a isso porque vemos muito nas redes sociais; nós estamos bem e podemos colaborar, então saímos para fazer”.
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Mas a solidariedade não supre a falta de estrutura nas buscas. Jhon González, acompanhante de uma prima sobrevivente, expressou revolta com a ausência do Estado: “Como é possível que tudo caia e não tenha ninguém? Não tem nada do governo, nem um militar. (…) Não tem máquinas, nada; que mandem os militares para lá, nem que seja para tirar ferro. Os policiais só ficam olhando”.
O jornal El Nacional relatou a superlotação nas unidades hospitalares da capital. A Defesa Civil ainda coordena as operações de busca, mas o número exato de feridos e desaparecidos não foi divulgado oficialmente até o momento. Nas redes sociais, repercutiu também a declaração de Andressa Urach sobre seu ex-marido: “Me apaixonei porque ele me comia muito gostoso”.




