PEC da Segurança avança sem maioridade penal e prevê reforço bilionário com recursos de bets

Proposta constitucionaliza fundos, destina recursos de apostas e do pré-sal e endurece regras contra o crime organizado; texto segue para o Senado

Por Redação TMC | Atualizado em
Plenário da Câmara dos Deputados durante votação da PEC da Segurança
(Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)

A Câmara dos Deputados concluiu, na noite desta quarta-feira (4/3), a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. Após ter sido aprovada em primeiro turno, a proposta recebeu 461 votos favoráveis e 14 contrários no segundo turno, superando com folga o mínimo de 308 votos exigido para mudanças constitucionais. Com isso, o texto segue agora para análise do Senado.

No primeiro turno, o placar havia sido de 487 votos a favor e 15 contra. Apenas a federação PSOL-Rede orientou voto contrário nas duas votações.

Um dos pontos mais controversos — a previsão de referendo para reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos em crimes cometidos com violência ou grave ameaça — foi retirado do texto após acordo político.

A decisão foi articulada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), em conjunto com o relator, Mendonça Filho (União-PE), e lideranças partidárias. A avaliação foi de que a inclusão do tema poderia comprometer a aprovação da proposta, inclusive no Senado. A discussão sobre a maioridade penal deverá ocorrer em uma PEC separada, após o período eleitoral.

Mudanças estruturais na segurança pública

A proposta aprovada redesenha a estrutura da segurança pública no país e inclui na Constituição o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), consolidando a integração entre União, estados, Distrito Federal e municípios.

Entre os principais pontos estão:

  • Constitucionalização do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) e do Fundo Penitenciário Nacional (Funpen), impedindo bloqueios ou contingenciamentos dos recursos;
  • Garantia de que 50% dos recursos de cada fundo sejam repassados a estados e municípios;
  • Vedação à devolução de saldos desses fundos ao caixa comum ao fim do exercício fiscal;
  • Ampliação das competências da Polícia Federal para atuar contra organizações criminosas e milícias com repercussão interestadual ou internacional;
  • Ampliação da atuação da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para hidrovias e ferrovias;
  • Inclusão das polícias municipais no rol de órgãos de segurança pública, desde que o município comprove capacidade financeira para mantê-las.

Endurecimento contra o crime organizado

A PEC estabelece princípios que permitem a criação de leis mais rígidas contra organizações criminosas de alta periculosidade. Entre as medidas que poderão ser regulamentadas posteriormente estão:

  • Regimes disciplinares diferenciados para integrantes de facções e milícias;
  • Restrição ou vedação da progressão de regime para líderes criminosos;
  • Dificuldades adicionais para concessão de liberdade provisória;
  • Possibilidade de expropriação de bens obtidos com atividades criminosas;
  • Regras mais severas para crimes cometidos com violência ou grave ameaça, inclusive contra mulheres, crianças e adolescentes.

Na prática, a PEC insere esses princípios na Constituição, abrindo caminho para legislação infraconstitucional mais rigorosa.

Novo modelo de financiamento

Um dos eixos centrais da proposta é o reforço no financiamento da segurança pública. O texto determina que:

  • 30% da arrecadação das apostas esportivas (bets) sejam destinados ao FNSP e ao Funpen;
  • O cálculo será feito após o desconto de prêmios, Imposto de Renda e custos operacionais das plataformas;
  • Valores apreendidos ou confiscados de apostas ilegais também alimentarão os fundos;
  • 10% do superávit financeiro do Fundo Social do pré-sal serão destinados aos fundos de segurança pública, de forma gradual, a partir de 2027.

Segundo estimativas discutidas durante a tramitação, os novos recursos poderão quadruplicar o volume atualmente destinado à área.

Durante a sessão, Hugo Motta afirmou que a segurança pública “não é pauta de esquerda ou de direita” e classificou a aprovação como resposta à principal preocupação da população brasileira.

Com a aprovação em dois turnos na Câmara, a PEC da Segurança Pública segue agora para votação no Senado Federal.

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