A rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal não me parece, em essência, um julgamento técnico. O que vimos foi a exposição crua do jogo político brasileiro, em que nomes são menos importantes do que os recados que se pretende dar.
Lamento pela pessoa de Messias, que claramente se preparou e se empenhou, mas acabou ocupando o papel clássico de bode expiatório em uma engrenagem que opera muito além de currículos ou mérito jurídico.
Há um certo cinismo em fingir surpresa. Durante décadas, indicações ao Supremo passaram com base em acordos, alinhamentos e conveniências. Não por acaso, nomes igualmente alinhados a governos anteriores foram aprovados sem maiores resistências. A diferença, agora, é o momento político.
A recusa não diz tanto sobre Messias, mas sobre a necessidade de setores do Senado sinalizarem força, pressionarem o governo e, de quebra, enviarem um aviso ao próprio Judiciário. É menos sobre quem entra e mais sobre quem manda.
Esse episódio também revela algo mais incômodo: a política brasileira parece cada vez menos preocupada em manter sequer a aparência de critérios. Lembro da velha máxima de que a mulher de César não basta ser honesta, precisa parecer honesta. Hoje, nem isso.
A sensação é de que as instituições operam sob uma lógica em que o jogo é explícito, quase desavergonhado, como se não houvesse mais necessidade de disfarce.
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Se alguém olhar para trás, daqui a algumas décadas, talvez veja esse momento com estranhamento ou até ironia. Um país em que decisões centrais eram tomadas com base em cálculos de poder tão evidentes, enquanto o discurso público ainda tentava sustentar alguma ideia de técnica ou justiça.
O problema é que, antes de virar anedota histórica, isso cobra um preço alto no presente. A política fica mais áspera, mais imprevisível e, inevitavelmente, mais violenta.
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